quarta-feira, 3 de junho de 2009

S e p a r a ç ã o

* Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos
das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio
.
Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juízo final do desamor.
.
Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
pareciam se amar tanto!
.
Houve um tempo:
uma casa de campo, fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.
.
Amou-se um certo modo de despir-se,
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
medo de botar a mesa. Amou-se
um certo medo de amar.
.
No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, troca de insultos,
malas desesperadas, soluços embargados.
.
Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?
.
No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.
.
O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.
.
Erguerá outra casa o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?
.
Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa mais que mala de chumbo.
.
* Poeta Afonso Romano Sant´Anna.
.
***

2 comentários:

Meméia disse...

Vá, pra não voltar
Nem é bom pensar
Que não vai voltar
Ah, pena eu não saber
Como vou suportar...

disse...

Descreve mais que o meu momento... tocou fundo e doeu, doeu além do coração: doeu a alma.