Este ano não vai ser igual aquele que passou...
Uma das maiores referências culturais deste país, a nossa inesquecível conterrânea Eneida de Moraes, a renomada escritora e festejada carnavalesca Eneida, ao contar a história do carnaval dizia, com muita propriedade:"O carnaval tem o condão de igualar os desiguais, ricos e pobres, brancos e
negros, e outros tantos...Nele desabam as barreiras sociais."
Em Belém, com os tamborins nas ruas, cessam todas as divergências, todas as inquietações, todas as dificuldades, e as expectativas antes sombrias, passam a ser alvissareiras, na hora que o Rei Momo, primeiro e único da Pandegolândia, anuncia aos súditos sua presença.
A partir daí, então, tudo se acalma (em termos obviamente),pois os foliões só vão se acalmar, mesmo, na quarta feira de cinza.
O novo salário mínimo, por exemplo,sai do bolso, sai dos meios de comunicação, tal como as meias e cuecas cheias de dinheiro, o mesmo acontecendo com a possível troca de secretários da governadora, ou talvez com a confirmação de alguns, pois certamente o cargo é tão bom que muitos não gostariam de largá-lo para sambar. Consta aliás, que um deles, por sinal detentor de um respeitado e invejável currículo, já chegou a declarar não saber como conseguiu viver tanto tempo sem ser secretário.
Nesse particular a calmaria é tamanha e muitos chegam a imaginar vivendo em Aruanda, o território que trazemos dentro de nós como explica Eneida: Belém de liberdade e paz, sem desigualdades nem ódio sem injustiças ou crueldades, cidade de amor sonhado por todos os homens.
Chegam até a imaginar que tudo será diferente (pra melhor, pensam os mais otimistas), motivados pelos conhecidos versos da velha canção carnavalesca, "de que este ano não vai ser igual aquele que passou."
Lamentavelmente, porém, tudo é ilusão, mera fantasia e nada mais.
Passados os folguedos, dos quais só restarão cinzas, cansaço, retalhos de cetim, pierrôs apaixonados, colombinas abandonadas e pedacinhos coloridos de saudade.
Além disso, só a esperança batucada e renovada na cabeça do povo e a certeza de que a vida continua...
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