
Porém nos ensinaram que temos que ser iguais, inclusão geral.
Então, para não sermos diferentes, portanto objetos de suspeita ou rejeição clara, mentimos uma igualdade impossível.
Melhor seria entender, cultivar e afirmar nossas diferenças - não como fator de ódio, mas de um espaço de crescimento natural de todos para um melhor convívio.
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O diferente parece ameaçador: queremos preservar nossa individualidade, tememos que o outro nos prejudique.
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A obrigação de nos enquadrarmos num modelo aflige e frustra a grande maioria de nós.
Poucos conseguem ser originais: calçamos o mesmo tênis, vestimos roupa de um mesmo tamanho, usamos o mesmo cabelo, sorrimos com os mesmos dentes, temos o mesmo ar desanimado ou delirante - porque nos drogamos seja com o que for, para aguentar.
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E se a nossa cabeça for um pouco mais alta, nosso corpo mais pesado, nosso desejo fugir à regra, se formos negros ou amarelos ou brancos, gordos ou magros demais, seremos quase inevitavelmente apontados: preconceito é o nome dessa perseguição.
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Religiões continuam ensinando que ser homossexual é doença ou anormalidade; usar camisinha é pecado, e evitar filho (a não ser com aquele falibilíssimo método "natural), pecado também.
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Culpabilizar uma raça e vitimizar a outra não ajuda a ninguém: promove o ódio racial, assim como as palavras irracionais podem promover ódio de classes.
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E assim, membros da manada social, política, econômica, cultural, padronizados, desesperados ou fúteis, criadores ou robotizados, covardes e heroicos, amorosos ou perversos, modernos mas assustados, carregamos a vida em vez de curti-la.
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Com ela subimos a escada rolante pelo lado errado, na busca de algo que nos alegre ou conforte, ou nos diga quem somos e o que fazemos neste mundo belo e feroz, sob o olhar irônico dos mitos que inventamos.
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*Lia Luft.Do livro "Múltipla Escolha"
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2 comentários:
Maravilhoso, Ronaldo!
É a mesmice poeta, é a mesmice!!!
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