terça-feira, 23 de fevereiro de 2010


Há muito tempo que não escrevo.
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Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir.
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Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermetação.
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Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem se me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.
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Há muito tempo que não existo.
Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada.
Começo a ter consciência de ter consciência.
Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso de minha existência própria.
Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos.Não sei nada.
(...)
Há muito tempo que não sou eu.
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*Poeta Fernando Pessoa.
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Um comentário:

Maria das Graças disse...

Obrigada meu amigo Ronaldo.
Fernando Pessoa descreveu o que gostaria de dizer....como sempre.
saudades
Graça Santos