domingo, 28 de fevereiro de 2010

Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita.
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É que me descubro de outra qualidade.
Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana,
esqueço meu passado e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa apenas viva.
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Também me surpreende, os olhos bertos para o espelho pálido,
de que haja tanta coisa em mim além do conhecido,
tanta coisa sempre silenciosa.
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Por que calada?
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Essas curvas sob a blusa vivem impunemente?
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Por que caladas?
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Minha boca, infantil, tão certa de seu destino,
continua igual a si mesma apesar de minha distração total.
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Às vezes, à minha descoberta segue-se o amor por mim mesma,
um olhar constante ao espelho,
um sorriso para os que me fitam...
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Período de interrogação ao meu corpo,
de gula,
de amplos passeios ao ar livre.
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Até que uma frase, um olhar _ como o espelho - relembram-me surpresa outros segredos,
os que me tornam ilimitada.
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(...) Mas onde está o que quero dizer, onde está o que devo dizer?
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* Clarice Lispector
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Um comentário:

Adina Bezerra disse...

Para Clarice sempre: Bravo! Bravo!