terça-feira, 31 de março de 2009

A viajante

Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.
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Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.
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Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra.
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Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida - e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando.
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Assim estou eu.
E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio - você que não chegou a entrar em minha vida, que não pisou na minha barraca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao múrmurio das águas.
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Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.
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Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos.
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Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada.
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E há também instantes bons, em terra estrangeira melhores que os das excitações e descobertas, e as súbitas visões de beleza sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa do bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.
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*Rubem Braga.
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3 comentários:

Jac. disse...

Ah...'meu' Rubem Braga novamente!
Obrigada, caro amigo! Obrigada!

"Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais
distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde...

Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar 'certo', você."

Beijos.

neilce disse...

Caro poeta, belíssima escolha deste texto de Rubem Braga, é tênue a separação entre o lírico e a prosa, é a prosa poética, comprovando que os gêneros se interpenetram.
Além disso, deixando a teoria de lado, eu quero é ficar extasiada diante de tanta beleza em que as palavras acentuam-se de vigor poético, alimentando nosso espírito e nosso cérebro.
Gde bjo

papistar_nunes disse...

Vagabundo, vagabunda,
verossímeis, vivem, vida vadia vagando, viajando, vociferando velhos versos visivelmente vomitados via voz, verde vagomundo.
Vocífereis vagabundos vossas verbes verdejantes!!!
Valores valem vintém!
Verbes vividas valem vitórias!