sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Roberta Carvalho : Viver é estar em transe.

Roberta
Carva-
lho
é produ-
tora visual.
Vídeos,
foto-
grafias,
design
gráfico
e muitas
outras atividades
fazem parte
de sua produção.
Adora sair pela
cidade a pé e registrar
um pouco de tudo. Workaholic (viciada em trabalho) assumida, não pára um segundo.

É destaque no cenário das artes com obras que refletem a questão da paisagem urbana.

Paraense, de 27 anos, acumula prêmios e muitas parcerias importantes no mundo artístico.

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RF: Cinema é misturar a farinha no leite, dar forma e esperar esfriar para ver o pão,- como define Paulo César Pereio ?
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Roberta: Não sei se necessariamente nesta ordem.
Cinema é uma arte de paciência, é meio que enrolar o pão mesmo e deixar tufar.Paciência para gerir o tempo, as pessoas, as máquinas, etc.

RF: Se arte é tudo , o nada também pode ser arte ?
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Roberta: ...Hummm...será que arte é tudo ? O nada é coisa nenhuma, é o indefinido.Se o nada tiver vida talvez possa existir arte.(risos)
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RF : Exposição fotográfica é um evento acadêmico ?
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Roberta: A fotografia tem uma relação muito latente com o mundo moderno, é um rito.Basta ver:existe uma casa de família que não tenha uma câmera fotográfica ? Como disse a Susan Sontag,é bem capaz de o ato de se fotografar ser tão comum quanto o ato sexual.(risos)
A questão acadêmica é um pedaço apenas. Agora se uma exposição é um evento acadêmico, isso já é por conta do formato do evento.A câmara fotográfica é uma máquina de produção de sentido, operada por alguém. Não é só porque ela depende de um mecanismo técnico que ela vai ser acadêmica. Ninguém percebe, fazendo uma analogia, mas a língua que falamos também é tecnologia. Ninguém nasce falando, a língua é uma prótese incorporada ao corpo, uma máquina.Engraçado isso: essa separação da poética e técnica como se uma coisa maculasse a outra...
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RF: Para o cinema caboclo, nossos rios são intérpretes envergonhados ?
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Roberta: ...Com toda essa imensidão...
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RF: O que colocaria nossa terra em transe ?
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Roberta: Viver é estar em transe.Aqui, acolá, pra onde for.Transe no sentido de inquietude.A vida em si brotar em uma bola girante é um verdadeiro transe.Alguma coisa acontece...Em outro sentido, as guerras, o congresso, etc. etc, são mesmo de deixar a terra em transe.
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RF: O que faz parte de sua mobília cultural ?
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Roberta: Yi Sang, um coreano surrealista que descobri há sete anos atrás e que desde então venho perseguindo.Kafka, Hesse, Rimbaud. Artaud,um francês que produziu teatro, roteiros de cinema, poesia...Sua obra é um protesto contra essa separação que se faz da cultura e da vida.Como se todas essas coisas que se produz, que convencionalmente chamamos de arte,- não fosse uma forma de exercer a vida, de se afirmar a existência.Isso compreendi com Artaud.A literatura , por exemplo, é meio de vivenciar a realidade, de existir mesmo, de coexistir de outras formas.Gosto de Pierre Lévy, a Santaella, Barthes e Sontag.
Mais próximos estão Acácio e Keila Sobral. O Luiz Braga pela carreira admirável que tem e pelo olhar singular.Neuton Chagas, Flávio Araújo, Daniele Meireles,Márcia Macêdo,Cláudio Assunção...que produzem coisas interessantes e tramam comigo idéias para agitar mais a cidade.
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RF: O que te deixa subitamenete assustada ?
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Roberta: Sinceramente, vez em quando assusto-me com as pessoas. Pela falta de ética e respeito.
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RF: Belém está curada da síndrome de província ?
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Roberta: Todos sabemos que não.Vivemos a aristocracia ainda.(risos)
Mas como diz um amigo: Belém tá virando metrópole.Tem até engarrafamento...(risos) Nossa cidade deve manter suas especificidades,essa mistura de tempos que Belém é.
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RF: O que se fotografa para capturar a alma de Belém ?
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Roberta: Água, muita água. Da chuva,dos rios e do ar.

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3 comentários:

nelson disse...

caro poeta, parabéns pelo trabalho no blog, sou grato por compartilher suas idéias.

Ana Carvalho disse...

Agradeço a lembrança de me enviar o link desse blog. Gostei muito de degustar cada letrinha aqui postada, fiquei encantada com o propósito. Daqui dessas Minas Gerais fico mergulhada em pensamentos e me deixo viajar pelas lembranças e chego a sentir o cheirinho do Pará presente nas manhãs. Valeu!!!!!

Anônimo disse...

conheci um único trabalho da Roberta através de uma amiga que fotografou, era uma intervenção de um olhar feminino numa árvore, vi profundidade no trablaho condizente com minha pro´ria proposta na poesia. amei! legal ler um pouco dessa entreevista aqui!

jorgeana braga.

(www.jorgeanabraga.zip.net)