sexta-feira, 25 de abril de 2008

Amizade, um mandamento. (Sérgio Augusto)

Caminhava, caminhava, tropeçava e não chegava a lugar algum. Com um tímido suspiro, o homem sem rumo indagou duas pedras que encontrara na praia:
-Qual o sentido de pertencer à natureza, se ela tudo transforma do pó ao pó? Qual o motivo de estarem à deriva, perdidas entre planícies desertas, no alto de montanhas, ou servindo de túmulo às águas do mar? E, finalmente, por que filosofo acerca de suas propriedades minerais se minha participação nesse círculo vicioso resume-se em dar tropeços seguidos ante a vida, que me escorre por dentre os dedos a cada ano que passa? Tivera o indagador vivido o suficiente para respeitar a natureza de cada espécie. O céu lhe apontava um destino, enquanto os passos o conduziam a um deserto de solidão. Certa vez chegara a comparar os primeiros raios solares à vida, quando esta é plantada e começa a florescer nas entranhas.

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A chuva, entremeada por trovões, às intempéries da adolescência, esta única noite cheia de armadilhas e angústias. E o crepúsculo, seguido de um eclipse, ao momento em que o homem se despede da vida e torna-se parte integrante do solo. Mas foi diante daquelas duas pedras, que mais pareciam a noite e o dia, de tão destoantes, que o desejo de passar à condição de criador, após uma vida como criatura, emergiu nos olhos tácitos do caminhante. Ele nunca tivera notado a disparidade entre sonho e ficção, apesar de acostumado à realidade.

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Jamais enxergara os montes de ébano que protegem os corações dos amantes. Não imaginara ser apenas uma piada dos deuses, quando estes brincam de experimentar os sentimentos. Não correra para além dos campos materiais, onde acreditara estar protegido sob as asas do orgulho.

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Não caminhara de mãos dadas com o infinito, preferindo chocar-se com a incerteza. Não reconhecera o tesouro quando este esteve diante de seus olhos, pois os homens não acreditam em tesouros.

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Nem sentira em seu próprio coração o calor que inunda a alma e rasga o peito, quando se acredita estar no fulcro central da paixão.
Porém, outro sentimento muito poderoso o desarmou e o fez cair sobre os joelhos: a amizade. Essa deusa terrena que não é traída, quando verdadeira; essa flecha envenenada com o doce sabor da eternidade. Essa profusão de cores... cada uma representando o amor que existe entre amigos verdadeiros.

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Quando percebeu sua pequenez, mais um dia havia acabado na vida daquele ser humano tão imperfeito e inacabado. Dominado pela sensação que jamais sentira, o caminhante entregou-se àquele delírio e foi transformado justamente no vácuo existente entre aquelas duas pedras.
A pedra mais antiga simbolizava o lado feminino, e a mais jovem a parte masculina daquele sentimento único. Ambas foram perfuradas pelo sal do mar. Mas não se separaram. Passaram a fazer parte de um oceano, em que o vácuo norteava o caminho das correntezas...

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Um comentário:

Sérgio disse...

Don Ron

Mas que prazer em ver um meu texto aqui postado. Certamente que estou em boa companhia. Mais que obrigado pela generosidade.

Saudações tunantes

Don Sérgio