domingo, 6 de abril de 2008

Na Tonga - por Elias Pinto

Deixei dito ontem, enquanto pedia mais uma ao garçom, que iria contar, depois de falar do Biriba, de um outro bar que ficava do lado de lá da rua, na Carlos Gomes. Os dois bares, disse então, têm mesa cativa no livro a ser escrito sobre a nossa boemia. Não era incomum sair do Biriba, atravessar a rua e esticar na Tonga, a casa que ficava do lado de lá e podia varar a madrugada, conforme a freqüência, assumindo uns ares de boate.
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Criada em 1972 (em plenas trevas ditatoriais do governo Médici, eclosão da Guerrilha do Araguaia, com a imprensa sob censura), a Tonga antecipou uma tendência que se firmaria naquela década: a do jornalista que deixa (mas nem sempre) a redação e a banda de cá do balcão, transferindo-se para o outro lado, o do quem passa o pano e o cliente a limpo.

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Acompanhado da então mulher, Lulucha, Avelino do Vale engendrou, na sua Tonga, um ambiente intimista, acolhedor, abrigo da boa música e de comidinhas reconfortadoras, descoladas, como o sanduíche de legumes e as pizzas (então uma novidade) acalentadoras, criação da sogra, Dionée Martins.
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Se de passagem pela cidade (até parece que viviam por aqui), Caetano Veloso e Gilberto Gil costumavam esticar na Tonga, sem aviso prévio. Por isso mesmo, China, um dos garçons da casa (fazia par com Valdomiro), bateu, certa vez, com toda educação, claro, a porta na cara de um tardo freguês, de sotaque baiano, o próprio Caetano, que, depois de fazer um show na cidade, resolveu estender a madrugada no bar do Avelino. Como estava na hora de fechar, China disse para o canoro madrugador voltar no outro dia – que fosse fazer samba e amor até mais tarde noutro canto.
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E se você esteve, perdido na noite daquela década, numa outra madrugada na Tonga, quem sabe não topou, sem perceber, com um topetudo político de Juiz de Fora. Ele mesmo, Itamar Franco, que, de veneta por Belém, acompanhado de um amigo, numa daquelas noites derrubou uma garrafa de uísque, jura o Avelino.
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E por falar em boemia nessa área aqui da Campina, claro que vocês lembram (os de mais de 40) do Porão (na galeria da Assembléia Paraense) e do Papa Jimi (na Presidente Vargas). E do bar Primavera (também na Carlos Gomes, no mesmo quarteirão do Biriba e da Tonga), famoso pela batida de frutas e pela Antarctica casco escuro, estupidamente gelada, acompanhada de tira-gosto de leitão, quem lembra? E onde ficava o Trogloditas, primeiro ponto a vender hambúrguer em Belém?
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Como a noite é uma criança insone, que venham outros bares, outros Tongas & Milongas & Biribas & Primaveras, e que a noite dos tempos lhes seja leve. Garçom, ainda não acabei. Traz a primeira das saideiras.

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3 comentários:

BIA MARQUEZ disse...

Gostaria de parabenizar ao querido Ronaldo Franco pelo blog incentivando e publicando o trabalho de diversos autores e poetas além dos eventos culturais.

Parabéns ao Elias Pinto pelo belo trabalho aqui publicado.

Elias Ribeiro Pinto disse...

Bia, muito obrigado pelas palavras. E vida longa ao blog e ao seu autor.

Anônimo disse...

Ronaldo:

Bom demais esse Elias...Onde ele estava escondido ?
Sua revista eletrônica está nos dando o prazer de ler bons poetas e cronistas paraenses.
Parabéns.

Elza Moura Chaves