.J.Bosco
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*O lugar do nosso amor
Todo dia este blog hasteia a bandeira da liberdade – de opinar, de poetar, de prosear, como proseiam os amigos. Alguém já disse que a democracia é uma plantinha frágil, que todo dia precisa ser regada. É o que faz, ou tenta fazer, este blog. Como aquele passarinho que carrega no bico um pingo d’água para apagar o incêndio na floresta, nós também fazemos a nossa parte.
Nem todos podemos ser Carlos Drummond de Andrade ou James Joyce, mas quando os lemos, um pouquinho deles se instala em nós. E a grandeza deles também se cumpre em cada um de nós, leitores.
O que este blog aposta – não em Las Vegas, mas na Angustura, na Praça da República, na beira da Cidade Velha – é que é possível erguer esta bandeira da liberdade sem que ela tremule por este ou aquele partido, mas que ela, essa bandeira, se faça ao vento, sem lenço sem documento, tremulando por todos nós, no coração do Brasil, do brasileiro, bandeira deste país chamado Pará.
A fim de evitar seis dias de trabalho, Deus, como descrito no Gênesis, poderia deixar céus, terra, luz, mar, Adão e Eva para depois. Bastava Ele criar no princípio, o professor, ator, cantor, locutor, pintor Walter Bandeira, que vários mundos iriam surgir antes do sétimo dia de descanso. No fim, Deus, pode ter certeza, veria que criar o Walter no princípio era bom.
Hoje, de retorno aos braços do criador,este deve tê-lo recebido orgulhoso.A vida de Walter Bandeira tem paralelos com a própria criação bíblica. Fez de tudo
Na medida que envelhecia, resmungava que a cidade estava crescendo demais. A cidade estava ficando incompreensível de tão grande. Na medida em que a cidade crescia, empobrecia de tudo e só poderia ser decifrada subitamente e com dificuldade por um profeta bêbado e genial em busca de pequenos milagres.
Apesar de trabalhar muito, o Walter era um “flâneur” que por definição é um ser dotado de imensa ociosidade e que pode dispor de uma tarde ou noite para zanzar sem direção, visto que um objetivo específico ou um estrito relacionamento do tempo constituem a antítese mesma do flâneur. Para ele, uma incursão na paisagem urbana nunca deveria ter direção nem propósito, numa rendição passiva ao fluxo aleatório de suas surpreendentes e inumeráveis ruas, praças e avenidas.
Conheci o Walter no início dos anos 60 e nossa amizade se consolidou nos tempos da faculdade. Arquitetura e Teatro foram criadas pela Ufpa no mesmo ano (63/64) juntamente com Administração e Biblioteconomia. Nós da arquitetura fizemos diversas parcerias com o pessoal de teatro. Encenamos peças onde projetávamos e confeccionávamos o palco, realizamos diversas leituras dramáticas de peças de vanguarda e conferências que relacionavam sempre arquitetura e teatro.
A última vez que vi o Walter vivo foi na vinharia S’Il Vous Plaît onde apareceu de repente, me beijou como sempre fazia, sentou, olhou em torno da mesa e disse mais ou menos isto: “Sabes Cal, a carne me aborrece agora. Um corpo de mulher não me desperta mais do que uma vaga sensação de lástima. Há qualquer coisa fora de lugar, qualquer coisa de patético num corpo, na forma pela qual ele nos olha ou se deixa ser olhado: o umbigo e os mamilos que nunca se vê, o corpo inteiro da mulher guardam certa expressão de olhos que nos fitam. Percebes o que eu quero dizer?”
Acho que já sabia que estava doente gravemente (foi mais ou menos 15 dias antes de sua morte). Recordo-me destas palavras, recordo que elas me causaram uma profunda impressão. Senti que qualquer coisa extraordinária estava na iminência de se dar. E, tão logo acabou de pronunciá-las, meu amigo Walter Bandeira correu os olhos em redor da sala com uma expressão de quem está se despedindo, uma centena de adeuses a todas essas coisas aparentemente sem importância, mesas, cadeiras, copos de vinho pelo meio; mas, nem uma única vez em direção a mim ... Correu os olhos de adeus em torno da sala, beijou-me e, antes que pudéssemos perceber que estava realmente se despedindo das coisas, pôs-se de pé, saiu andando e varou pela porta, rua adentro.
Adeus velho amigo. Dá um abraço no Chembra e, em breve nos reencontraremos, não sei onde, nem quando. Adeus...
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Foi ali, por volta de 1990. Recebi o Walter Bandeira
na redação do jornal A Província do Pará, na Campos Sales,
para a longa entrevista,
de página dupla, que eu publicava no Caderno Magazine.
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Pois o entrevistado, ao final do bate-papo, desligado o gravador,
não me saiu com a má-criação de dizer
(e deixei isso registrado na abertura da matéria): “Ah, nem doeu”.
Com isso queria dizer que eu havia pegado
leve nas perguntas, não o levara para o canto do ringue,
deixando-o sem saída, fustigando-o com
perguntas indiscretas, provocadoras.
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Era bem a cara do Walter: atiçar o “pequeno”, em vez de ser atiçado.
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Na mesma abertura, como vingança,
também deixei anotado: na próxima entrevista,
aguardaria o Walter com um porrete
escondido atrás da porta. Queria ver ele reclamar da minha fineza.
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Na verdade, nunca fomos amigos próximos, jamais lhe
acompanhei a carreira.
Eu era mais chegado a seu
irmão mais jovem, o Euclides Bandeira,
o nosso Chembra,
que se foi mais cedo.
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De vez em quando, mas esse “de vez em quando”
já tem mais de vinte anos,
nos encontrávamos na antessala do Bar do Parque,
para uns papos madrugadores,
ele fumando feito um Max Martins.
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Apimentada ou não, aquela foi a mais extensa
O MUNDO NÃO É AQUI.
Quando estudava num colégio de religiosos, ensinaram-me que a inspiração na visão escolástica do frade Tomás de Aquino significava, na Bíblia, a ação de Deus sobre seus escrevinhadores. O livro sagrado foi produzido, assim, por mãos humanas, movidas pela ação direta do Criador, de maneira que utilizada a linguagem dos homens, pudesse o seu conteúdo ser mais bem interpretado e compreendido. Aqueles que se derem ao trabalho de ler a Bíblia, talvez me entendam. Penso que seu encanto vem justamente desse formato de escrever histórias onde o amor e o ódio convivem entre a tragédia e o luto.
A Bíblia é poesia homérica, uma grandiosa odisséia que descreve o Criador atirando raios por sobre a cabeça das criaturas, promovendo catástrofes ou impondo seu divino poder através de respeitoso medo. Sabe-se que escrita por diversas mãos, algumas foram mais talentosas que outras. Uma espécie de testemunho da passagem desses escritores por mundos não muito parecidos a este em que vivo como, por exemplo, no Apocalipse, um livro misterioso onde a viagem de João assemelha-se mais às experiências de seguidores dos ensinamentos e práticas de Timothy Francis Leary.
No entanto e, sobretudo, a Bíblia está cheia de momentos fascinantes. O que diferencia as passagens lá existentes é justamente um maior ou menor talento daqueles que a escreveram, e mostraram suas histórias por fantásticos mundos. Assim, também percebo e entendo a passageira viagem dos homens pela terra.
Uns capazes de projetar, no seu chão, grandes sombras, as mais fortemente visíveis e admiradas por todos. São os melhores e irão daqui, por primeiro, a procura de um outro mundo que não é aqui. E este, no qual me encontro, parece, está menos povoado por essas fantásticas sombras e tomado por outras, cada vez menores. Foi no que pensei ao saber, hoje, da morte do amigo Walter Bandeira.
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* Desmontar a casa
Burro, burro, burro
Certamente não foram os deuses do futebol que escolheram as sedes brasileiras para a Copa do Mundo de 2014. Muito menos entrou em campo o Sobrenatural de Almeida, célebre personagem de Nelson Rodrigues que decidia – talvez com a ajuda dos deuses do futebol ou à revelia destes – renhidas partidas em lances capitais que desafiavam a compreensão dos boleiros.
O editorial da Folha de S.Paulo de sábado passado, a edição dominical do jornal paulistano e mais as colunas de ontem de Juca Kfouri e do companheiro Gerson Nogueira já forneceram suficientes explicações, por quem é do ramo, para entender os verdadeiros motivos, e não as justificativas técnicas alegadas, que levaram as máfias que controlam a Fifa (e a CBF, bem como as federações estaduais, num bolo de noiva pecuniário fatiado por interesses que parasitam em torno do bilionário futebol globalizado) a selecionar as doze capitais brasileiras. Em particular, para nós, o anúncio de Manaus, em detrimento de Belém, cidade de maior tradição futebolística e com estádio que necessitaria de menos investimentos do que aqueles exigidos para Manaus. Mas é possível que este fator, como alertou Gerson Nogueira, em vez de contar a favor de Belém, tenha pesado contra na balança sonante da Fifa/CBF.
Evidente que Belém, que há algum tempo vem perdendo terreno, para Manaus, como cidade referência na região amazônica, sofrerá outro considerável abalo em relação à capital amazonense, levando em consideração a prioridade nos investimentos federais que privilegiarão as cidades-sede do Mundial de 2014.
E com isso, outra metáfora criada pelo imortal Nelson Rodrigues fechará mais um botão sobre a já castigada imagem do paraense, o complexo de vira-lata que nos vem assolando, como continua o país a ser assolado pelo festival de besteiras cunhado pelo jornalista Sérgio Porto, o não menos inesquecível Stanislaw Ponte Preta. Mas a nossa cota de besteiras, sem dúvida, parece bem acima da média nacional, afivelando ainda mais, por sua vez, a focinheira do nosso complexo vira-lata.
Por outro lado (ou ainda do mesmo lado), enquanto Belém capitaliza as notícias negativas que o Pará (e a própria Belém) produz em proporção industrial, com invasões, conflitos agrários, trabalho escravo, bordel legislativo, urbanismo fóssil, etc. e etc., Manaus capitaliza não só o fato de o Amazonas concentrar a maior área preservada da região, como o próprio nome do Estado confundir-se com o da região. Por fim mas não menos importante, os dividendos de abrigar a Zona Franca, estando ali instaladas indústrias como Coca-Cola e Sony, patrocinadoras da Fifa.
Bem, diante de tudo que se sabe, tanto da Fifa quanto da flagrante incompetência dos que ora estão de plantão no poder estadual e municipal, o momento é de aproveitar a deixa e, fazendo uma analogia com as regras não escritas do futebol (e pedindo desde já licença ao presidente Lula, pois estamos entrando no terreno gramado que é sua maior especialidade), adotar a medida mais comum quando o time vai mal: demitir o técnico.
Demitir o “treinador” da ex-quase-futura-sede, Duciomar Costa, que, indo contra aquela “máxima”, mostra que os pequenos fracos são também capazes de guardar monstruosidades administrativas que exalam a moral mais putrefata da paróquia que o pariu (através do voto). E demitir a “treinadora” estadual, Ana Júlia Carepa, que, como diria o Lula (para quem, aliás, Ana está “prestigiada” no cargo), na língua que o presidente melhor domina, o idioma boleiro, já não tem o time na mão. Demitir, claro, através do voto, mas também pode ser, se couber, no tapetão.
E o que mais me dói é que, como está no “entorno” do Mangueirão, o estádio Francisco Vasquez, da Tuna, certamente ganharia uns trocados para reformar o Monumental do Souza, fazendo, assim, jus ao título. Mas para nós, tunantes, é apenas mais uma derrota que tiramos de letra, nossa espacialidade. E já que a cidade está fazendo água por todos os lados, melhor lançar-se ao mar, ou à baía, onde somos, com a nossa regata, os maiorais, apesar da maledicência de que português não gosta de água.
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*"Se o professor não tem o costume de ler autores paraenses, como é que ele vai incentivar o seu aluno a ler?."
* "Numa terra onde quem investe em cultura é considerado maluco, o poeta Ronaldo Franco obteve uma grande vitória. E das mais lúcidas, diga-se de passagem. Trata-se do sucesso de seu blog, que se destina apenas a noticiar, divulgar e incentivar arte em todos os tipos de manifestação que ela possa tomar forma.
Na mesa à minha esquerda
É com alegria e muita expectativa, que a Revista Ensaio Geral retorna às mãos dos leitores.
Após vinte e poucos anos, a Escola de Teatro e Dança da UFPA (Etdufpa) reabre espaço para publicações de professores e estudantes das Artes Cênicas. Ao retomar projeto iniciado na década de 80, pelo Serviço de Teatro Universitário, sob a coordenação e supervisão da professora Maria Sylvia Nunes, a Escola cumprirá mais uma função educativa, a de repassar à sociedade os resultados de trabalhos e pesquisas desenvolvidas.
As primeiras publicações da revista Ensaio Geral aconteceram nos anos oitenta, vinte anos após fundação do Serviço de Teatro da UFPA. Na época, as estudantes, hoje professoras doutoras em artes cênicas e profissionais da área, Wlad Lima e Olinda Charone, participaram do processo de montagem dos exemplares, datilografados e mimiografados. Hoje, participarão como autoras e divulgadoras das próprias produções. As publicações foram interrompidas, por diversas razões, mas existem três exemplares preservados, com textos importantes sobre teatro, na Biblioteca da Escola. Felizmente, foi um período fecundo, de muita produção artístico-acadêmica que, ora, vem a público.
A Revista manterá o nome Ensaio Geral como forma de homenagear e reconhecer o trabalho da equipe fundadora do Serviço de Teatro Universitário. Na década de 1960, a professora Maria Sylvia Nunes, o professor Benedito Nunes, a professora Angelita Silva, com a participação indispensável de alguns professores, como os visitantes Amir Hadad, hoje, diretor do grupo Tá na Rua, no Rio de Janeiro, e o professor Carlos Eugênio Marcondes Moura, pesquisador ligado ao CNPq, deram início ao processo de formação para profissionais das artes cênicas.
A Revista Ensaio Geral, com os trabalhos acadêmicos será importantíssimo veículo de registro, divulgação e fontes de outros estudos para os interessados e conhecedores da área. Principalmente agora, em que a Escola amplia a oferta de cursos para a sociedade, com as Licenciaturas em Dança, Especialização
Os objetivos principais da Revista serão os de divulgar a produção cênica; refletir sobre o cenário artístico na, da e para a Amazônia; dialogar, sempre que possível, com outras regiões, etnias e linguagens, no exercício da encenação e das inúmeras possibilidades de apresentações para a sociedade; incentivar e instigar os novos pesquisadores para se lançarem à lida diária do criar/fazer/pensar/divulgar, no processo ininterrupto que é o da produção de conhecimento. Os assuntos a serem abordados deverão explicitar o estado das artes cênicas da Amazônia, prioritariamente; os processos de construção das pesquisas e espetáculos apresentados; o panorama crítico-reflexivo sobre as obras realizadas nos palcos amazônidas.
A presente edição da Revista Ensaio Geral traz, inicialmente, textos de dezoito professores da Escola, – envolvendo as três áreas dos cursos: teatro, dança e cenografia – num esforço coletivo para o começo de um diálogo que se pretende ininterrupto e ampliado. Os textos servirão para, em primeiro lugar, dar a conhecer aos estudantes e profissionais da área, um pouco do que cada autor tem desenvolvido em suas pesquisas e em experiências artísticas e acadêmicas, em segundo lugar, para que eles consultem e se sintam motivados a trocar idéias e aprofundar os conceitos trabalhados nos textos.
Nos próximos números haverá a participação de pesquisadores de outras instituições e de estudantes dos cursos ofertados pela Escola. Nesta retomada do projeto de publicação, contamos com a colaboração dos qualificados professores que dispuseram parte de sua produção científica nesta empreitada. Sob as bênçãos dos deuses dos palcos, vida longa à Revista Ensaio Geral. Evoé!
Boa leitura!
Bené Martins
* Foi anunciado, oficialmente, durante solenidade da Fifa, em Nassau, nas Bahamas, o resultado das cidades que irão sediar os jogos da Copa 2014.