quarta-feira, 10 de junho de 2009

Só não Dom Bosco >> Elias Ribeiro Pinto


Andando ao léu, de bobeira no domingo, entrei na seção de vinhos da Yamada aqui no Iguatemi e espichei uns olhos, olhos grandes, admito, para as garrafas enfileiradas nas prateleiras, como que dispostas para um desfile vinícola.
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Deu sede. E também vontade de, ao contrário da minha crônica romântico-revolucionária-franciscana de sábado passado, pedir um DAS no governo, uma assessoria especial básica, uma sinecura qualquer, para poder tomar meu vinhozinho francês não menos básico nessa terra fértil de direitos. Alô, Puty, estamos aí, quer dizer, aqui.
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De maneira geral, melhorou bastante a bancada de vinhos nos nossos supermercados, inclusive os de linhagem nacional. No país, feiras de vinho atraem iniciados e curiosos. Em algumas dessas feiras, o visitante pode degustar bebidas de diversas faixas de preço, conforme o valor do ingresso adquirido.
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Por exemplo, pagando, digamos, vinte reais, pode degustar tantos vinhos até determinada faixa de preço. E se adquirir uma espécie de passe livre, por volta de cem reais, tem direito a experimentar todas as garrafas que conseguir e correr para a galera, o que, convenhamos, não fica bem para um sofisticado seguidor de Baco.
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Se para as bandas de lá – antes mesmo de o inverno abrir oficialmente suas portas trincadas de gelo – tem batido um friozinho que vai bem com o calor aveludado proporcionado por uma taça de vinho, por aqui a gente também encontra ocasião para erguer um brinde às bacantes, enquanto corre o dedo na testa para enxugar o suor.
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Livros, feiras, programas de TV, sessão de degustação, o vinho está em alta no país da loura gelada. Aliás, alguns supermercados de Belém já expõem o produto em prateleiras apropriadas, como nas adegas. Nas boas rodas do ramo, quando o assunto é vinho, é de bom tom manifestar um mínimo de familiaridade com safras, marcas, varietais, cortes e combinações com alimentos.
E pensar que tudo começou, a popularização da bebida, com aquela garrafa azul de um adocicado vinho branco alemão. Pelo menos, já era um progresso cromático.
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Antes, suspiro, très chic era tomar vinho rosé Chateau Duvalier.
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Pior ainda foi o tempo do vinho Dom Bosco, que me perdoe o padroeiro dos salesianos. Mas quem mandou andar em má companhia, rotulando avinagrados? Meu fígado deve ainda pagar tributo àquela temporada. Eu era jovem, saía do científico para entrar na universidade (isso já está parecendo carta-testamento do Getúlio).
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Por falar em científico – para os recém-chegados, corresponde ao atual 2º grau, quer dizer, ensino médio, acho eu –, assim como alguns avanços na área se devem a golpes do acaso (a maçã caindo na cabeça de Isaac Newton), meu afastamento do Dom Bosco (em sua versão etílica) se deveu a um desses imprevistos.
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Bebendo o vinho(?) numa praia (argh, a que barbarismos a juventude nos expõe), derrubei-o acidentalmente sobre o capô do carro. Quando o sol cristalizou a nódoa, transformando-a numa náusea crocante, tive a revelação a que horrores meu estômago era submetido. Never more, como diria o sábio corvo de Edgar Allan Poe.
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Mas minhas memórias vinícolas remontam ao início da adolescência, moleque ainda. À mesa, aguardava, sedento, que papai completasse sua alquimia, misturando vinho, açúcar, água e gelo. Era a sangria. A matéria-prima utilizada era o vinho Raposa. O nome devia ser este, já que no rótulo uma rutilante raposa lambia o vinho que escorria de um garrafão caído no chão, formando uma generosa poça.
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A esta raposa imputo, freudianamente, os meus inúmeros pecados etílicos que se acumularam desde então, entre os quais o vinho Dom Bosco não é o maior. Parece um gambá bêbado? Alto lá, gambá não! Reconheçamos a procedência: raposa bêbada.
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Por falar em vinho, hoje à noite recebo amigos para uma taça e outra, que já não temos o mesmo physique du rôle (não é nada disso que vocês estão pensando) de outras bacanais. Quem quiser, que apareça para um brinde.
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2 comentários:

Safira disse...

Olá Poeta!

Tem uma surpresa para você lá no meu blog.

Abraço.

Safira

Adina Bezerra disse...

E onde esta confraria do vinho se reune? rsrs