terça-feira, 1 de dezembro de 2009

De pai para filho: "O amor é a mais carnal das ilusões"

Nós não podemos amar, filho.
O amor é a mais carnal das ilusões.
Amar é possuir, escuta.
E o que possui quem ama?
O corpo?
Para o possuir seria preciso tornar nossa a sua matéria,
comê-lo, uncluí-lo em nós...
E essa impossibilidade seria temporária,
porque o nosso próprio corpo passa e se transforma,
porque nós não possuímos o nosso corpo
(possuímos apenas a nossa sensação dele),
e porque, uma vez possuído esse corpo amado,
tornar-se-ia nosso,
deixaria de ser outro,
e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro ente,
desapareceria...
.
Possuímos a alma?
Ouve-me em silêncio: Nós não a possuímos.
Nem a nossa alma é nossa sequer.
Como, de resto, possuir uma alma?
Entre alma e alma há o abismo de serem almas.
.
Que possuímos? Que possuímos?
Que nos leva a amar ? A beleza?
E nós a possuímo-la amando?
A mais feroz e dominadora posse de um corpo
o que possui dele?
Nem o corpo, nem a alma, nem a beleza sequer.
.
A posse de um corpo lindo não abraça a beleza,
abraça a carne celulada e gordurosa;
o beijo não toca a beleza da boca,
mas na carne molhada dos lábios perecíveis e mucosas;
a própria cópula é um contato apenas,
um contato esfregado e próximo,
mas não uma penetração real,
sequer de um corpo por outro corpo...
Que possuímos nós? Que possuímos?
.
As nossas sensações ao menos?
Ao menos o amor é um meio de nos possuirmos,
a nós, nas nossas sensações?
É ao menos, um modo de sonharmos nitidamente,
e mais gloriosamente portanto,
o sonho de exitirmos?
E ao menos, desaparecida a sensação,
fica a memória dela conosco sempre, e assim,
realmente possuímos...
.
Desenganemos até disso.
Nós nem as nossas sensações possuímos.
Não fales.
A memória, afinal, é a sensação do passado...
E toda sensação é uma ilusão.
.
Escuta-me, escuta-me sempre.
Escuta-me e não olhes pela janela aberta
a plana outra margem do rio,
nem o crepúsculo,
nem esse silvo de um comboio que corta o longe vago.
Escuta-me em silêncio...
.
Nós não possuímos as nossas sensações...
Nós não nos possuímos nelas.
.
*Poeta Fernando Pessoa.
.
***

2 comentários:

Sandra Machado disse...

Ronaldo... só um solêncio eloqüemte pode traduzir minha emoçao diante sua arte.
PARABÉNS!!

Arthur Valente disse...

Hoje ao ler o jornal, tive um grande susto!!!
Um convite para a missa de sétimo dia do Ronaldo Franco...
Vim conferir no blog... era um homônimo...
Triste notícia para os familiares daquele... mas muito feliz para os amantes da belas palavras.