sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Belém: 393 Janeiros


os pés ardem no chão
à esquina cega
da espera da esperança
rente aos muros do sol
tão quietos quanto os espíritos da manhã
que apregoam o surrado amor
no olhar saqueado
pela tarde enfurecida
.
esperas demais sobre as janelas silenciosas
que debruçam inquietações
escancaram corações
sob os martelos do medo
pois a paz já foi assassinada
ao pé de uma árvore
com suas folhas amendrontadas
por detrás de uma igreja assustada
por baixo de pássaros que escondem os pescoços
no rosto de um Cristo aflito
sem lágrimas para derramar
onde a vida se esfola
abatida e depenada
.
uma cidade em pedaços
ensanguentada
por uma rajada de violências
(-redes crespusculares
expelem as vísceras da agonia-)
.
não há caminhada sem temor
caminhamos no rumor da morte
(à sombra que engole a cidade)
.
(RF)
***

8 comentários:

Anônimo disse...

Belo poema.

Andrea.

Anônimo disse...

Tu mostras a nossa realidade em versos.Poema maravilhoso,Ronaldo.

Antonio Maria Leite.

Anônimo disse...

Teu poema é o retrato da miséria de Belém.Perfeito.Parabéns.

Afonso Mota.

Neilce disse...

Teu poema transforma em versos agudos o estado de incapacidade em q nos encontramos diante da crescente violência que amedronta a todos nós; a arte poética ñ pode ficar alheia ao (des)mundo da qual faz parte, daí metaforicamente expressares a cidade das mangueiras como a cidade do medo; bem q poderia ser diferente neste 12 de janeiro; alimentemo-nos da poesia, como a tua, a fim de ñ tornar nossa existência tão insignificante.
Parabéns pelo poema.

Adina Bezerra disse...

Cidade
(Marcos Quinan e Adina Bezerra)

Todos os dias
Esta cidade tentará me engolir
Neles finalizarei alguma coisa
E começarei outra
Em alguns momentos
Poderei estar muito feliz
Noutros esperarei
Com a paciência da determinação
Porque meu tamanho
É maior que sofrimento e dor

Cansei do modismo da violência
Estas vestes são escarlates
E os que dela se encantam
Desfilam na minha cidade
Feito madonas adornadas
Usando projécteis de prata
Para não ficar “demodê”

O assalto se concretiza
A ternura deles rouba a minha
E deles roubo o que caracteriza
O meu personagem instante a instante,
Improvisando o atraente por si
Nessa hora todos se transfiguram,
Não há solidão e a cidade disfarça
Sua vontade de querer dançar

O glamour do horror.
Na valsa dos inconseqüentes
Excita o espetáculo da violência
E nos palcos desta cidade
A dança da desesperança
Faz a guerra dos imbecis
Levando a platéia ao pranto.

Calma cidade de concreto abstrato
Morro um pouco todos os dias
Pelas ruas e esquinas
Não me queira duma vez
Apenas posso te desvendar
Porque continuo calmo
Só respirando, se preciso for
E a fragilidade contracena
Comigo todos os dias.

O furor embota os meus sonhos
Perturbo-me na escolha do existir
Na acomodação de um ganho
O ciclo da zona de conforto
É viver na babel do desencanto
Sobejando apenas saudades
Da paz que nunca senti

Ah cidade tão pequena
Quando sua gente se descobre
Na simplicidade, no perigo
E na grandeza de sobreviver
Nos meus pais e irmãos
Vejo pessoas, reconheço passos
Nos anônimos, esbarro
Vejo pessoas crio outros laços
Nenhuma dor embaça
Minha consciência, por isso grito!

A ti dôo meu sangue, cidade,
Quando ouço as histórias
Da gente que vive confundida
Com os protocolos da miséria
Escuto com alegria os que contornam
A burocracia do absurdo
Os que me aconselham
Afastar das aparências enganosas
Porque ninguém nada tem
Senão o que está dentro de si

Anônimo disse...

Rapaz,esse teu poema é uma lição de artesanato ágil,preciso e competente.E tu te dizes um aprendiz de poeta...
Só posso pensar que queres confetes e serpentinas.rs

Parabéns,Poeta.

Jorge C.( tu sabes quem eu sou.rs)

Anônimo disse...

Coitadinha de nossa Belém.

Ana Lucia Vieira.

Franssinete Florenzano disse...

Lindo! Reproduzi lá no meu blog. Grande abraço!