terça-feira, 17 de novembro de 2009

O pó de pirlimpimpim me abriu as porteiras da leitura.


1 Leitura demais pode subir à cabeça, para o bem e para o mal. Pensem naquele fidalgo de La Mancha. Incendiado pelas aventuras dos livros de cavalaria, esqueceu da administração de seus bens e saiu mundo afora a duelar com moinhos.
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2 A descoberta do primeiro livro é tal qual a primeira celebração a Onan que inauguramos – solitária e cúmplice de si. Aliás, também dizem que, hum, celebrar demais, digamos, também pode subir para a cabeça, endoidecer o onanista. Ou será que é a falta ‘de’ que faz subir ‘a’ para a cabeça? De qualquer maneira, um mundo de sonhos e possibilidades se abre ao virar das primeiras páginas e ao descascar da primeira, como diria, da primeira... É isso aí mesmo que vocês já estão carecas de saber.
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3 Ao grande sertão das infantes veredas literárias fui conduzido por Monteiro Lobato e Julio Verne. O brasileiro, seduzindo-me a cafungadas no pó de pirlimpimpim, me abriu as porteiras do Sítio do Pica-Pau Amarelo. A bordo de seus livros, cheguei à lua antes de Armstrong e sua turma. Conheci os tempos heróicos da Grécia velha de guerra ao lado de Pedrinho, na torcida por Hércules. Ingressei no rabugento País da Gramática, título que Emília surrupiou à última hora do Visconde de Sabugosa, o sábio bolorento.
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4 Entre uma e outra reinação, no intervalo da viagem ao redor do mundo, ouvimos histórias da preta Nastácia, os serões de Dona Benta, as lorotas do impostor Gato Felix, que, vejam só, reconheci mais tarde nos traços do homônimo impostor Felix Krull, de Thomas Mann.
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5 Feito o Pedrinho voltando das férias, de regresso ao desenxabido e urbanoide mundo, foi com saudades inconsoláveis que me deixei ficar à porteira do Sítio, despedindo-me das figuras de Rabicó, Emília, Narizinho, Visconde, Anjinho, Príncipe Escamado, Burro Falante, Quindim, Saci, que já se confundiam com as sombras do entardecer da minha infância. Vim-me embora ao encontro do adulto. Vez por outra, a embriaguez, a leve, aquela que não faz mal nem dá ressaca, me traz de volta, num gole de cerveja proustiano, o tempo perdido do faz-de-conta.
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6 Já o francês Julio Verne revelou-me o underground: vinte mil léguas submarinas, o centro da Terra. Ah, Capitão Nemo, esse enrustido dos mares. Graças à sustentável leveza de nosso ser infantil, éramos capazes de passar cinco semanas pendurados num balão ou cruzar o mundo em 80 dias.
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7 Enquanto isso, no vai de valsa das letras, eu curtia o modorrento ensino escolar. Cumpria minhas obrigações de aluno como Julien Sorel, o infeliz herói de “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal (que agora me deu uma vontade irrefreável de reler), cumpria suas funções na serraria do pai – com tédio e desprezo. A propósito, o infortunado Sorel também era vítima do desprezo paterno por “aquela mania de leitura”, lembram? E quem aí recorda qual o livro que o futuro protegido da senhora de Renal lia quando o pai o surpreende à beira do regato, em descuidado devaneio literário, e dá-lhe um safanão? Vocês não sabem, né? Vão que ainda está em tempo de ler o maravilhoso “O Vermelho e o Negro”, que não tem nada a ver com a história do Flamengo.
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8 Mas deixemos de digressão, que isto é lá com Laurence Sterne e seu Tristram Shandy.
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* Texto do jornalista > Elias Ribeiro Pnto
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