sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Paulo Vieira: Poeta Autêntico

Paulo com o Poeta Arnaldo Antunes

Paulo na fria Bruxelas.



Paulo Vieira é Poeta e Cronista, possui quatro livros, dois impressos e dois no prelo. É Engenheiro Florestal Pesquisador, e vive em Belém.

Ronaldo Franco: O que espanca a sua paciência?

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Paulo Vieira: Os maus poetas. Aqueles que pensam que para ser bom escritor é bastante abotoar a camisa de linho até o gogó, empinar o nariz e esperar os aplausos. Mas isso o tempo desfaz.

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RF: O que o poeta deixa impecável ao sair de sua casa?

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PV: O destino de toda casa é ser a rua mais ampla, onde se pode andar despreocupado. Por isso, ao sair, levo a casa comigo para onde vou. Com a confortável mobília da memória e a família que me habita.

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RF: Para quem você daria comida na boca?

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PV: Para meu filho Pablo, minha mulher, Mariana e para as crianças famintas, massacradas por puro capricho doentio de Hitlers, Stálins & Bushs.

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RF: Em seus pensamentos o que lhe volta à tona temperado com saudades?

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PV: Sinto saudades do futuro. Que não sente saudades de ninguém. Mas ele sempre me volta à tona, com suas memórias tão presentes e ao mesmo tempo fugidias. Para mim a saudade é aquela sensação áspera e suave que os dedos sentem logo depois que a areia escapa por entre eles.

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RF: "Para ser perfeito, um botequim tem que ser um pouco fedorento". Você concorda com o Hugo Carvana?

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PV: Já freqüentei muito boteco ‘pé sujo’, mas gosto mais ainda é do ‘pé podre’, aquele com cerveja de 2 reais, um balcão que não é lavado desde o século XVI, e um velho por trás com cara de poucos amigos. Assim o boteco é mais vivo, e mais vigoroso.

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RF: Instituíram a ditadura do corpo malhado. Mulher musculosa é bonita?

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PV: A mulher precisa ser bonita para ela mesma. Não para os outros. E para muitas, as mais independentes, essa é a lógica. Se ela ficar feliz parecendo a Alice do Popeye, uma Paniquete genérica qualquer, ou a Preta Gil, é o que importa.

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RF: O que se planta na literatura paraense?

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PV: Sei de gente nova escrevendo poesia com qualidade em Belém, inclusive não publicada. Na prosa, cito Daniel da Rocha Leite e Nilson Oliveira, como autores talentosos que levam muito a sério seu trabalho e seu tempo.
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RF: Quando você ri de si mesmo?

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PV: Quando percebo que o choro é inevitável.

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RF: Belém passou daquela coisa torturada e torturante de ser provinciana?

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PV: Não. Nem vai passar por enquanto. É aí que está a graça e a desgraça desse chão. É importante observar o papel relevante dos governos para garantia e manutenção dessa condição da Santa Maria de Belém. Os atropelos e desvios históricos, que há séculos sabotam o curso natural desse Riocidade.

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RF: O que lhe faria trocar dez dias de vida por apenas 30 segundos na pele do Super Homem?

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PV: O Superman é um idiota que vive tentando provar que o ser humano é fraco, medroso e incapaz, não gosto dele. E o Tarantino também não. Prefiro o Chapolin Colorado, o único super herói que tem como símbolo um coração desenhado no peito.

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RF: Que divergência turva uma grande amizade?

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PV: Nenhuma. Grandes amizades, muito amiúde, já de si, são divergentes.

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RF: O que anda de muletas no mundo?

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PV: O respeito pela vida.

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RF: Quem sobrevive na floresta urbana: o policial ou o poeta?

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PV: Depende do compromisso de cada um com a urbe. Pode-se morrer num instante, ou sobreviver bem, se souber andar só no sapato. As pessoas se esquecem de que aqui é a floresta também, pensam na Amazônia lá longe, como se as Onças e as Cobras Pico de Jaca não pudessem atacá-las ali mesmo na Praça Batista Campos, ou numa ruela qualquer da Cidade Velha. Muita gente vive a tropeçar nos troncos e cipós espalhados pelas veredas de Belém.

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RF: Quando uma lembrança vai para a lata de lixo?

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PV: Sempre. Vão todas para a lata de lixo da memória, que também recicla essas lembranças, e as transforma em versos.

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RF: De mim, basta eu! -você diria a quem?

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PV: A mim mesmo, ora, pois.

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RF: Qual é a última página de seu dia?

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PV: Não sei se os dias se encerram de verdade. Pode ser que a noite oculte mais umas páginas brancas em memória do dia que se finge de morto. Vai ver essas páginas brancas são as estrelas do céu, brilhando em homenagem ao dia, que dormita. Creio que não há página final para o dia, ainda que a morte insista em fechá-lo com sua pesada capa grossa e uns agudos pontos finais.

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RF: O que em Belém é uma guerra inútil?

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PV: Não posso chamar de guerra inútil se não há combate, mas queria ver uma guerra, inútil que fosse, contra a poluição sonora, as gaiolas horizontais, o desemprego, os motoristas desvairados, o clientelismo político e vários etcteras...

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RF: O que faz parte de sua mobília cultural?

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PV: Tenho um pequeno acervo de livros de poesia, prosa, pintura e música (na forma digital, principalmente). Não tenho dado conta de ler tudo, mesmo assim ainda quero muito mais. A única posse que me apetece é o livro. Me esforço também em acompanhar o cinema velho e o contemporâneo, escapando dos Moviecoms da vida, é claro.

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RF: Onde anda a nossa inocência cabocla?

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PV: Não sei se temos essa tal inocência. Aquele trecho bobo, daquela música patética e racista que diz “nossos índios não comem ninguém...”, é furado. É claro que comem, e cru! Não somos os coitadinhos do norte. Somos, sim, os cabanos malinos, se for necessária a malinação...

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RF: O que colocaria Belém em transe?

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PV: Belém já vive num transe. Só estando em transe para aceitar tanta corrupção, pobreza, e a situação degradante em que a maioria das famílias desta cidade vive.

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RF: Se arte é tudo, o nada também pode ser arte?

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PV: Depende do nada. Se for um nada liquido, pode ser arte sim. Agora, se for um nada sólido, aquele meio pastoso, péssimo sinal, pode descartar, não é arte, nem aqui nem em Macau. Se o nada for gasoso, aí deve de ser vácuo, o que, segundo certos poetas intergalácticos, também pode ser encarado como arte.

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RF: O seu humor suporta a empáfia engomada?

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PV: Às vezes sim, meu humor é elástico. Para enxergar melhor todas as coisas, inclusive as podres, é preciso paciência e bom humor. Mas tem muita empáfia desengomada também.

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RF: Onde você se transforma em Peter Pan? E quando você é o Capitão Gancho?

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PV: Tive uma infância muito adulta, dura e curta. E vivi pouco, em gotas, a adolescência. O que me dá hoje, quase aos trinta, boa parte da juventude ainda por viver. Simpatizo com o Capitão Gancho, e a Sininho foi por um bom tempo minha confidente preferida. Amiga igual não há. Mas o que eu queria mesmo era ver o DreamWorks fazer uma versão do Peter Pan.

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RF: Quem se vende barato ou se dá adiantado feito um Fausto belenense?

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PV: Acontece muito disso aqui. O cara se vende barato, ou até se dá de graça. A coisa é ter quem compre ou aceite tal bugiganga. Geralmente ninguém quer nem de graça. E acredito que a lista da pechincha nem caberia no seu tablóide.

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RF: Em que moinhos tropicais você usaria a espada e o escudo de D. Quixote?

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PV: Cervantes estava certo. Muita coisa pode passar, mas a boa sátira fica. Toda a gente deveria polir seu escudo & espada e sair pelo mundo como o cavaleiro andante, lutando em defesa do que acredita, ou contra o que não acredita.

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RF: Como o leitor pode tomar contato com seu trabalho literário atualmente?

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PV: Meu primeiro livro Infância Vegetal, de 2004, pode ser encontrado ainda em algumas livrarias de Belém (mas não sei se ainda existem livrarias em Belém), e o segundo Orquídeas Anarquistas (2007), só pode ser encontrado em minha casa. Livro Para Pescaria Com Linha de Horizonte, está no prelo, bem como o Livro Para Distração Na Tragédia, de crônicas, que sai no começo de 2009. Para ter acesso a esses trabalhos, e outros badulaques, basta acessar meu blog de literatura
http://vieiranembeira.blogspot.com/, e escrever para mim.



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12 comentários:

Anônimo disse...

Entrevista inteligente.Gostei muito.

Jose Freire.

Carmen Palheta disse...

Instigante.Repleta de poesia.De verdades.De memórias. Gostei do que li na entrevista.
Abs,
Carmen

Adina Bezerra disse...

Já nos ensina um provérbio bíblico:
"A palavra dita num tempo certo, é como maçã de ouro em salvas de prata".
Paulo Vieira me parece ser um daqueles que resolveu morrer de si mesmo para ressuscitar num novo mundo de eterno aprendizado...

Anônimo disse...

Um chute na mesmice.Uma entrevista diferente.Com perguntas e respostas inteligentes.Os dois ligados no hoje.Legal.Estou passando para os amigos.E eles
estão adorando.

Téo.

Anônimo disse...

Na entrevista,argumentação lúcida,leveza e poesia,num equilíbrio criativo.
As perguntas rejeitam as sempre lidas nos jornais.As respostas impregnadas de sinceridade.Tudo isso proporciona ao leitor a sensação de ler coisas novas.Parabéns ao dois.

Lília Mello

Anônimo disse...

Caros,

José, Carmen, Adina, Téo e Lilia.

Obrigado por suas palavras. Fiquei feliz e surpreso com suas reações. É bom receber retornos tão positivos, como os seus, espero vê-los lá pelo https://vieiranembeira.blogspot.com passem por lá e me deixem seus contatos, pois estou perto de lançar livro novo em Belém, gostaria de convidá-los pessoalmente,

Grande abraço,

Paulo Vieira

Anônimo disse...

Olá Franco Ronaldo,


Mais obrigado pelo convite para a entrevista. Pode passar lá no vieiranembeira, já fiz o post.

Abraço,

Paulo

Antonio Juraci Siqueira disse...

Bravo!, Poetas!
Há tempo não lia entrevista tão inovadora tanto nas perguntas quanto nas respostas. Coisa de mestres.

Antonio Juraci Siqueira

Anônimo disse...

Caramba.Essa entrevista é um show.Surpreende com criatividade.Muito legal.

Armando Sá Oliveira.

Anônimo disse...

Eu não conhecia o poeta Paulo Vieira.Com essa entrevista adoraria conhecê-lo.

Lilia Bentes

Anônimo disse...

Gente inteligente é tudo de bom.

Claudia Veiga (Campinas SP)

Lorena disse...

Olá, ótima entrevista! Pela primeira vez visito este blog e gostei do que ví. Um abraço.