sábado, 25 de outubro de 2008

Chapéu Tirado para o Chapéu Virado -Lembranças de Francisco Simões


Mário de Andrade em Chapéu Virado (Mosqueiro-Belém do Pará), 1927.
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Na crônica do sábado passado, neste mesmo coojornal, falei de algumas das minhas recordações de infância e juventude, anos 40 e 50, passadas na Ilha do Mosqueiro, no Pará, mais especificamente na praia do Chapéu Virado. Abri o meu coração e mergulhei nas minhas lembranças agradáveis daqueles tempos.
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Estou acostumado a receber comentários sobre os meus textos, o que muito me envaidece e estimula. Não deixo de responder a ninguém que, me lendo, ainda me concede a honra de opinar sobre o nosso modesto mas autêntico trabalho. Desta feita o material que recebi motivou-me a voltar ao assunto, porém enfocando o que alguns disseram de bom e de ruim, é verdade, sobre a atual realidade daquela Ilha.
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Meu bom amigo, ex colega de BB, professor da maior competência, o bom João André que nasceu em Belém mas viveu grande parte de sua infância e juventude em Manaus (AM) disse: “Sua crônica sobre a Praia do Chapéu Virado me emocionou, porque além de transmitir com maestria um sentimento ainda tão presente em mim, embora vivido há tantos anos, me lembra que visitei Mosqueiro pela primeira vez, nas primeiras férias no BB, ano de 1959, quando fui conhecer minha terra, Belém, onde nasci e de lá saí para Manaus com poucos meses de vida”.
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Muito bom quando tocamos a emoção das pessoas, mas melhor ainda quando nossas recordações reavivam as de outrem que igualmente as viveu, no mesmo lugar, e poucos anos depois de mim. Afinal, dizem que recordar é viver. Eu concordo. Agradeci ao André como o faço a todos que me escrevem, pois não deixo ninguém sem uma palavra de retorno, por respeito e por agradecimento, sempre.
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Outro bom amigo, também colega aposentado do BB, o Orlando Barcelos, que não é paraense, comentou: “Amigo Simões, coisa mais linda suas reminiscências na praia do Chapéu Virado. Imagino que os benefícios do passeio já começavam na travessia de 2 horas na tal embarcação. Acho maravilhoso, em dia ensolarado, atravessar a Baía de Guanabara, lentamente, na antiga Barca, mas que dura apenas 20 minutos, imagine só em duas horas. ´É mesmo reconfortante, muito saudável.”
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Desculpem, mas me envaidece sim ter o trabalho reconhecido, especialmente quando o que escrevemos alcança os sentimentos de quem lê. Acredito que outros sintam a mesma coisa. É reconfortante e nos estimula, mesmo aos 70, a dar sempre o melhor de nós. A cada texto que escrevo é uma espécie de recomeçar permanente. Como que rejuvenesce a gente.
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Minha irmã Maria Luiza, que vive em Belém e esteve na Ilha do Mosqueiro na semana passada, entre outros comentários confirmou o que eu já temia, ou tinha quase certeza, afinal o homem é predador por natureza, etc e tal. Disse ela a certa altura: “Acabo de ler a sua crônica sobre o Chapéu Virado e realmente, mano, a paz acabou na Ilha do Mosqueiro. Do Hotel do Russo só existe o prédio que há algum tempo foi transformado em pousada, embaixo um supermercado, mas nem isso existe mais.”
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Adiante ela me falou das melhorias, ou melhor, da modernização porque passou toda a Ilha. Sei que ela não escaparia ao avanço natural do... progresso. Não sou contra ele, mas deploro o homem não conseguir, especialmente no Brasil, modernizar sem aniquilar o que de bom, o que de herança de um passado, de história, mereceria ser olhado com respeito e sensibilidade antes de apenas simplesmente destruir.
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O amigo e excelente poeta paraense, Alberto Cohen, dos mais assíduos no me transmitir sua opinião sincera, leal, sempre que lanço crônica nova, acabou por confirmar, com outras palavras, as minhas desconfianças sobre como estaria hoje aquilo que já fora um paraíso, na minha infância e adolescência. A certa altura disse:
“Amigo Simões, suas saudades do Mosqueiro são recompensadas pelas belas lembranças de um lugar que já foi melhor. Hoje proliferam as invasões, sob o beneplácito dos que deveriam ser os fiscais da ordem pública. Continue com suas belas recordações de um Mosqueiro que já foi mais belo, meu amigo.”
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Percebe-se que o silêncio, assim como o clima romântico, poético, de outros tempos, devem ter sido devidamente expurgados com a modernização geral da Ilha. Mas, que fazer se assim são esses seres humanos ditos racionais? Pois é.
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Ilha do Mosqueiro
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Um enfoque diferente deu a minha querida amiga Kathleen ML, paulista, poeta da melhor qualidade, pessoa de uma larga cultura geral, ao ler o meu texto. Vejam como ela descreveu seus sentimentos despertos pelas minhas recordações naquela crônica:
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“Amigo Simões, amei as lembranças do Chapéu Virado, na baía de Marajó, penso. Até caminhei naquelas areias, metaforicamente, e me vi menina correndo pra lá e pra cá, não sabendo nadar, mas me oferecendo às ondas, agarrando as mangas-rosa, brincando de esconde-esconde com um menino, parecido talvez com você , menino tb da areia.”
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“Na realidade o cenário era São Vicente, na orla do outro lado da cidade, junto à Ponte Pênsil: a Praia das Vacas, onde se faziam piqueniques (alguém ainda faz?), um recorte de areia onde quase ninguém ia, com árvores de pitanga misturadas com a vegetação selvagem. Os homens, que eram meu pai e meu avô, subiam numa ponta de pedras para pescar. A paisagem era de mar, mas o espírito tinha algo de pastoril, de bucólico. Até porque, outrora, nos anos 20 e 30, havia lá uma pequena fazenda marítima, e as vacas passeavam na areia! (risos)”
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Não bastasse esta delícia de comentário de Kathleen, uma de minhas poetas preferidas, com certeza, ela ainda teve o zelo de pesquisar e me enviar algumas fotos antigas da praia do Chapéu Virado. Mais emocionante foi receber dela este presente que acompanha também esta crônica: a foto, na mesma praia, feita no ano de 1927, na qual vê-se, em primeiro plano, o grande e saudoso mestre... Mário de Andrade. Meu Deus, eu não mereço, isto é uma relíquia. Obrigado Kathleen, você não existe.

3 comentários:

Anônimo disse...

Amigo Ronaldo Franco, grande poeta, talvez possa parecer estranho o autor do texto estar a fazer um comentário justo onde se encontra sua crônica. Mas, eu explico: não queria perder esta oportunidade de lhe agradecer de coração a gentileza deste gesto que teve para comigo publicando em seu magnífico blogo meu texto divulgado na revista Rio Total em outubro/2006. Afinal o assunto julgo que bem justificou sua atitude, assim como a foto que abre o texto, pois como o amigo mesmo me disse, é uma verdadeira relíquia. Então obrigado, Ronaldo, e disponha deste amigo, fã e conterrâneo, Francisco Simões.
(www.franciscosimoes.com.br)

José Carneiro disse...

Ronaldo Franco, meu poeta: eu já conhecia a crônica do Simões mas gostei de revê-la (e relê-la) no seu blog, pois imagino que muita gente vai poder curtir as lembranças do meu amigo virtual Chico Simões.
Grande abraço

Anônimo disse...

Orlando Barcellos
Atendendo recomendação do Simões fui ao seu Blog, Ronaldo, e, com grande satifação, reli a crônica Chapéu Tirado para Chapéu Virado.
Abrilhantada com a foto do Mário de
Andrade sentado nas areias da linda praia paraense.
Parabéns pelo seus trabalhos mostrados em seu blog, que passarei a visitar.
Desejo felicidades e contínua inspiração. abraços