quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Outrora agora > Poema de Pedro Galvão


Mais où sont les neiges d´antan?
François Villon


*
Aqui outrora foi Belém.


Aqui
outrora
é.

Mas onde estão as chuvas de antanho?

Elas escorrem no assombro e no beco
na farda do colégio
na maçã do meu rosto
em nosso primo amor posto em segredo.
Escorrem no azulejo - azul lejos
que sobrevive no azulejo destroçado.
Escorrem nas vidraças mortas
e nas casas desaparecidas
e na chaga dolosa dos terrenos
e nos restos de paredes e baldrames
e pias e grades e negras sentinas
em tufos de capim rompendo o não
no xadrez dos mosaicos que escarceram
velhos passos.

Elas escorrem
nos trilhos de bondes deslembrados
sob o asfalto elas escorrem
pelas ruas
que outrora em nós corriam.


Ferrugem ferragens de alvarenga
alvacenta manhã depois das aulas:
onde deságua o Beco do Cardoso brincavas
brincavas entre palavras ariscas
aranhas caraguejos águas alga
rismos meridianos orações
subordinadas erros (z)eros
ereções ereções entre as maranhas
do negro vasto velo de Tereza.

Mas onde as chuvas de antanho ?

outrora

Aqui foi Belém.

Aqui outrora é.

E já nem sei onde começam teus confins,
cidade amada,
mas meus passos, acostumados à carícia
das pedras, ainda tocam os restos da tua alma.
essa alma desal - desanimada
pedra a pedra
prédio a prédio
palavra por palavra
teu eras teu axi
teu tu e teu sotaque
tua velha sintaxe
luso ameríndia
até não sobrar nada
até ficares axânime
sobre um lençol de pobreza.
.
A chuva do transtempo cai agora.

No lampião da esquina a luz goteja
lágrimas sujas na valeta.
É luz de anoitecer.É noite alta.
Arcos
arcas
arcabouço
noturno de visagens nos sobrados
poluções visões de incesto
remorsos gemem no arcaz.

Nenhum olho malévolo cintila nos covis.

As janelas dormem.
as línguas dormem.
O casarão reinol rumina o tempo.
Um soluço animal percorre as ruas.
A cidade
insolvente
se dissolve.


***

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2 comentários:

Marisa - Assis/SP disse...

Lindo poema! Grande poeta publicado por outro grande poeta!
Abraços!
Marisa.

Anônimo disse...

Excelente poema.

Teresa Lima