sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Clarice Lispector



UMA IRA
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- "Esta" - se disse o homem ajoelhado como antes de ir para a guerra - "esta é a minha prece de possesso. Estou conhecendo o inferno da paixão. Não sei que nome dar ao que me toma, ou ao que estou com voracidade tomando, senão o de paixão.
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O que é isso que é tão violento que me faz pedir clemência a mim mesmo? É a vontade de destruir, como se para este momento de destruir eu tivesse nascido. Momento que virá ou não, a minha escolha depende de eu poder ou não me ouvir. Deus ouve, mas eu me ouvirei? A força da destruição ainda se contém um instante em mim.
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Não posso destruir ninguém ou nada, pois a piedade me é tão forte como a ira; então eu quero destruir a mim, que sou fonte dessa paixão. Não quero pedir a Deus que me aplaque, amo tanto a Deus que tenho medo de tocar nele com meu pedido, meu pedido queima, minha própria prece é perigosa de tão ardente, e poderia destruir em mim a imagem de Deus, que ainda quero salvar em mim.

____________________LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
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6 comentários:

Antonio Juraci Siqueira disse...

Poetamado,
Belmiro Braga, poeta mineiro do século passado,costumava brindar, pós leitura, os autores dos livros de poesia que merecessem sua crítica ou o seu aplauso, com pérolas como esta:

"Não gosto do teu livro - este tesouro
de tantas obras-primas imortais,
pois sempre que te leio os versos de ouro
os meus detesto mais..."

O mesmo eu digo em relação não só aos teus livros como em atenção ao teu blog. Perto dele fico com vergonha do meu... Mas como já disse Antonio Tavernard: "Cada um dá o que tem"...

Obrigado por nos presentear, sempre, com o melhor que guardas no pacará da tua alma.

Um grande abraço do
Antonio Juraci Siqueira

Adina Bezerra disse...

Ler Clarice é sempre dar um mergulho profundo na alma...

Grande abraço Ron

Carmen disse...

Amigo querido,
(errata...)

Flanar pela alma de Clarice é um passeio indescritível e maravilhosamente apaixonante. Obrigada por me fazer lembrar de sua existência. Fico até sem graça com meus comentários na "pseudo-flâneur"de hoje...

Besos.
Carmen

Anônimo disse...

Poetinha Franco,
sinto-me em casa no teu blog.
Tuas escolhas poéticas não se separam em momento algum do colega inteligente,sensível,amigo,que eu e meu marido conhecemos no Colégio Moderno.
Estamos te acompanhando de longe.Hoje,moramos no Rio de Janeiro.E que tal um dia passar uns dias no Leblon? Estamos te esperando.

Valda e Cleber Lobato.

simone disse...

Aqui, respira-se cultura!

Anônimo disse...

Amigo Ronaldo (o famoso Naldo das meninas...rs)
Longe dos tempos do Colégio Moderno,do futebol no meio da rua Antonio Barreto,das chuvas do Umarizal,das mangas da Generalíssimo Deodoro,dos namoros no portão,dos goles de cachaça (com Guarasuco) na Casa Sagica,do arrasta pé em noites de São João, das poesias rimadas todas em "ão" pra nossas namoradas,agora perto do teu arquivo a saudade bate.
Maravilhoso blog,meu amigo.
Tua feira de arte irei sempre visitar.
E que tal um encontro com cachaça e guaraná ?rs
Manda-me o teu telefone.
A Violeta te manda um abraço.

Álvaro Beltrão.